Ep. 49 — Cuidados Paliativos na Emergência — Dra. Juliana Galvão
Entrevistas

Ep. 49 — Cuidados Paliativos na Emergência — Dra. Juliana Galvão

Cuidados paliativos e Medicina de Emergência não são especialidades opostas. Neste episódio, Fernando Cinquetti e Elisa Nascimento recebem a Dra. Juliana Galvão para discutir proporcionalidade terapêutica, intervenções potencialmente inapropriadas, controle de sintomas, comunicação com familiares e os desafios de construir planos de cuidado individualizados em um ambiente marcado pela urgência e pela incerteza.

🏷️ Episódio #49📅 15 de outubro de 2026🎙️ Fernando Cinquetti Possibon, Elisa Nascimento e Juliana Galvão
Comunicação em SaúdeCuidados PaliativosMedicina de EmergênciaTomada de DecisãoValores

Sobre este Episódio

A Medicina de Emergência costuma ser associada à capacidade de salvar vidas, enquanto os cuidados paliativos ainda são frequentemente confundidos com a suspensão de tratamentos ou com a proximidade da morte. Mas será que essas duas áreas são realmente opostas?

Neste episódio do Café com Emergência, Fernando Cinquetti e Elisa Nascimento recebem a Dra. Juliana Galvão, médica emergencista formada pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e com pós-graduação em cuidados paliativos, para discutir como essas abordagens podem e devem coexistir no atendimento aos pacientes graves.

A conversa começa pela trajetória da convidada e por sua percepção de que o cuidado não pode ser reduzido ao diagnóstico ou à aplicação de protocolos. Conhecer a história, a funcionalidade, os valores e as preferências de cada paciente é fundamental para construir um plano terapêutico individualizado.

Um dos principais temas do episódio é a proporcionalidade terapêutica. A discussão diferencia intervenções adequadas, fúteis e potencialmente inapropriadas, destacando que decisões sobre intubação, reanimação cardiopulmonar, diálise ou antibioticoterapia precisam considerar o contexto clínico, o prognóstico e os objetivos do cuidado. A incerteza, especialmente nas primeiras horas de uma emergência, exige cautela para evitar limitações de suporte precipitadas.

Outro ponto central é o risco de rotular pacientes como “paliativos” e, a partir disso, deixar de oferecer cuidados necessários. A presença de uma doença avançada ou de limitações terapêuticas não elimina a possibilidade de emergências clínicas. Dor intensa, dispneia e outros sintomas que provocam sofrimento significativo também exigem avaliação, tratamento e reavaliação.

A comunicação ocupa parte importante da entrevista. Juliana explica por que perguntar simplesmente à família se deseja intubação ou reanimação pode transferir aos familiares uma responsabilidade técnica que não lhes pertence. A tomada de decisão compartilhada deve integrar a avaliação profissional aos valores e às preferências do paciente, sem transformar familiares em responsáveis isolados por escolhas complexas.

O episódio também aborda a dificuldade contemporânea de conversar sobre a morte. A partir de experiências clínicas e das reflexões da Comissão Lancet sobre o Valor da Morte, os participantes discutem como a medicalização do morrer pode afastar pacientes e famílias das decisões sobre o fim da vida.

Por fim, a conversa reforça que os cuidados paliativos exigem conhecimento, treinamento e habilidades específicas. Avaliar funcionalidade, reconhecer sofrimento, compreender prognósticos e conduzir conversas difíceis são competências que precisam ser estudadas e praticadas com a mesma seriedade dedicada aos procedimentos de emergência.

Mais do que discutir limites de tratamento, este episódio é um convite a ampliar o significado de cuidar: reconhecer quando intervir, quando reavaliar e, sobretudo, como manter o paciente no centro das decisões.

O que levar desse episódio

A frase ‘não tem nada a fazer’ me deixa completamente alucinada, porque sempre tem algo a ser feito.

A gente tem que tomar muito cuidado com essas limitações de suporte precoces também.

Comunicação é uma habilidade desenvolvida, assim como qualquer outra habilidade técnica.

Referências do Episódio

  1. VELASCO, Irineu Tadeu; RIBEIRO, Sabrina Corrêa da Costa (org.). Cuidados paliativos na emergência. Barueri: Manole, 2020.
  2. ACADEMIA NACIONAL DE CUIDADOS PALIATIVOS. Posicionamento da Academia Nacional de Cuidados Paliativos sobre suspensão e não implementação de intervenções de suporte de vida no âmbito dos cuidados paliativos. Critical Care Science, v. 36, 2024.
  3. SÃO PAULO (Estado). Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. Resolução CREMESP nº 355, de 23 de agosto de 2022.
  4. SALLNOW, Libby et al. Report of the Lancet Commission on the Value of Death. The Lancet, v. 399, n. 10327, p. 837–884, 26 fev. 2022. DOI: 10.1016/S0140-6736(21)02314.
  5. KON, Alexander A. The Shared Decision-Making Continuum. JAMA, v. 304, n. 8, p. 903–904, 25 ago. 2010. DOI: 10.1001/jama.2010.1208.
  6. CASTILHO, Rodrigo Kappel et al. (org.). Tratado de cuidados paliativos. Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP). 1. ed. Rio de Janeiro: Atheneu, 2026. 1226 p. ISBN 978-85-388-1248-7.
  7. RIBEIRO, Sabrina Corrêa da Costa et al. (org.). Cuidados paliativos no paciente crítico. 3. ed. Santana de Parnaíba: Manole, 2025.

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