Sobre este Episódio
A Medicina de Emergência costuma ser associada à capacidade de salvar vidas, enquanto os cuidados paliativos ainda são frequentemente confundidos com a suspensão de tratamentos ou com a proximidade da morte. Mas será que essas duas áreas são realmente opostas?
Neste episódio do Café com Emergência, Fernando Cinquetti e Elisa Nascimento recebem a Dra. Juliana Galvão, médica emergencista formada pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e com pós-graduação em cuidados paliativos, para discutir como essas abordagens podem e devem coexistir no atendimento aos pacientes graves.
A conversa começa pela trajetória da convidada e por sua percepção de que o cuidado não pode ser reduzido ao diagnóstico ou à aplicação de protocolos. Conhecer a história, a funcionalidade, os valores e as preferências de cada paciente é fundamental para construir um plano terapêutico individualizado.
Um dos principais temas do episódio é a proporcionalidade terapêutica. A discussão diferencia intervenções adequadas, fúteis e potencialmente inapropriadas, destacando que decisões sobre intubação, reanimação cardiopulmonar, diálise ou antibioticoterapia precisam considerar o contexto clínico, o prognóstico e os objetivos do cuidado. A incerteza, especialmente nas primeiras horas de uma emergência, exige cautela para evitar limitações de suporte precipitadas.
Outro ponto central é o risco de rotular pacientes como “paliativos” e, a partir disso, deixar de oferecer cuidados necessários. A presença de uma doença avançada ou de limitações terapêuticas não elimina a possibilidade de emergências clínicas. Dor intensa, dispneia e outros sintomas que provocam sofrimento significativo também exigem avaliação, tratamento e reavaliação.
A comunicação ocupa parte importante da entrevista. Juliana explica por que perguntar simplesmente à família se deseja intubação ou reanimação pode transferir aos familiares uma responsabilidade técnica que não lhes pertence. A tomada de decisão compartilhada deve integrar a avaliação profissional aos valores e às preferências do paciente, sem transformar familiares em responsáveis isolados por escolhas complexas.
O episódio também aborda a dificuldade contemporânea de conversar sobre a morte. A partir de experiências clínicas e das reflexões da Comissão Lancet sobre o Valor da Morte, os participantes discutem como a medicalização do morrer pode afastar pacientes e famílias das decisões sobre o fim da vida.
Por fim, a conversa reforça que os cuidados paliativos exigem conhecimento, treinamento e habilidades específicas. Avaliar funcionalidade, reconhecer sofrimento, compreender prognósticos e conduzir conversas difíceis são competências que precisam ser estudadas e praticadas com a mesma seriedade dedicada aos procedimentos de emergência.
Mais do que discutir limites de tratamento, este episódio é um convite a ampliar o significado de cuidar: reconhecer quando intervir, quando reavaliar e, sobretudo, como manter o paciente no centro das decisões.



