Sobre este episódio
Setembro Amarelo é um período importante para discutir saúde mental, prevenção do suicídio e a necessidade de procurar ajuda. Mas, quando o assunto envolve profissionais de saúde, existe uma pergunta que nem sempre recebe a mesma atenção: quem está cuidando de quem cuida?
Na estreia do Café Expresso, Fernando Cinquetti propõe uma reflexão sobre os limites de uma abordagem que concentra no indivíduo quase toda a responsabilidade pelo próprio bem-estar. Recomendações como fazer terapia, praticar atividade física, descansar e desenvolver resiliência são importantes, mas podem ser insuficientes quando o profissional continua exposto às mesmas condições de trabalho que contribuíram para seu adoecimento.
Para ilustrar esse problema, o episódio apresenta uma situação frequente: um residente desenvolve sinais de burnout, procura tratamento, é afastado e, após melhorar, retorna ao mesmo serviço, à mesma escala e à mesma cultura institucional. O afastamento pode ter cuidado das consequências, mas o que aconteceu com as causas? Tratar um profissional não significa necessariamente transformar o ambiente que participou do seu adoecimento.
Essa discussão ganha relevância particular na Medicina de Emergência, marcada por alta demanda, imprevisibilidade, decisões críticas, contato frequente com sofrimento e morte, trabalho noturno e sobrecarga. Quando expressões como “todo mundo está cansado” ou “na residência é assim mesmo” se tornam respostas habituais, existe o risco de normalizar condições insustentáveis e transformar o sofrimento em parte esperada da formação profissional.
Fernando também aborda o impacto do burnout nas perspectivas de carreira, a dificuldade de reconhecer o próprio sofrimento e a automedicação como fenômeno que merece atenção. A discussão não pretende atribuir todo transtorno mental ao trabalho, mas questiona a insuficiência de estratégias individuais quando fatores organizacionais permanecem sem enfrentamento.
O episódio amplia, então, a responsabilidade pela prevenção. Instituições e lideranças precisam discutir escalas, carga de trabalho, supervisão, assédio, violência, segurança psicológica e acolhimento de profissionais em sofrimento. Campanhas, palestras e canais de apoio podem ser necessários, mas não substituem mudanças concretas na organização do trabalho.
A reflexão termina com uma inversão de perspectiva: em vez de perguntar apenas como tornar os profissionais mais resistentes ao sofrimento, talvez seja necessário perguntar por que precisamos de tanta resiliência para trabalhar em determinados ambientes.
Cuidar da saúde mental continua sendo uma responsabilidade individual, mas não pode ser exclusivamente individual. Quem cuida também precisa ser cuidado — e essa responsabilidade também pertence às instituições.



