Ep. 44 — Setembro Amarelo: quem cuida de quem cuida?
Café Expresso

Ep. 44 — Setembro Amarelo: quem cuida de quem cuida?

No primeiro Café Expresso, Fernando Cinquetti propõe uma reflexão sobre a saúde mental dos profissionais de saúde durante o Setembro Amarelo. Entre burnout, sobrecarga e ambientes de trabalho adoecedores, uma pergunta orienta a conversa: estamos apenas ensinando os profissionais a suportar o sofrimento ou também transformando as condições que contribuem para ele?

🏷️ Episódio #44📅 28 de setembro de 2026🎙️ Fernando Cinquetti Possibon
BurnoutMedicina de EmergênciaSaúde do TrabalhadorSaúde MentalSegurança psicológica

Sobre este episódio

Setembro Amarelo é um período importante para discutir saúde mental, prevenção do suicídio e a necessidade de procurar ajuda. Mas, quando o assunto envolve profissionais de saúde, existe uma pergunta que nem sempre recebe a mesma atenção: quem está cuidando de quem cuida?

Na estreia do Café Expresso, Fernando Cinquetti propõe uma reflexão sobre os limites de uma abordagem que concentra no indivíduo quase toda a responsabilidade pelo próprio bem-estar. Recomendações como fazer terapia, praticar atividade física, descansar e desenvolver resiliência são importantes, mas podem ser insuficientes quando o profissional continua exposto às mesmas condições de trabalho que contribuíram para seu adoecimento.

Para ilustrar esse problema, o episódio apresenta uma situação frequente: um residente desenvolve sinais de burnout, procura tratamento, é afastado e, após melhorar, retorna ao mesmo serviço, à mesma escala e à mesma cultura institucional. O afastamento pode ter cuidado das consequências, mas o que aconteceu com as causas? Tratar um profissional não significa necessariamente transformar o ambiente que participou do seu adoecimento.

Essa discussão ganha relevância particular na Medicina de Emergência, marcada por alta demanda, imprevisibilidade, decisões críticas, contato frequente com sofrimento e morte, trabalho noturno e sobrecarga. Quando expressões como “todo mundo está cansado” ou “na residência é assim mesmo” se tornam respostas habituais, existe o risco de normalizar condições insustentáveis e transformar o sofrimento em parte esperada da formação profissional.

Fernando também aborda o impacto do burnout nas perspectivas de carreira, a dificuldade de reconhecer o próprio sofrimento e a automedicação como fenômeno que merece atenção. A discussão não pretende atribuir todo transtorno mental ao trabalho, mas questiona a insuficiência de estratégias individuais quando fatores organizacionais permanecem sem enfrentamento.

O episódio amplia, então, a responsabilidade pela prevenção. Instituições e lideranças precisam discutir escalas, carga de trabalho, supervisão, assédio, violência, segurança psicológica e acolhimento de profissionais em sofrimento. Campanhas, palestras e canais de apoio podem ser necessários, mas não substituem mudanças concretas na organização do trabalho.

A reflexão termina com uma inversão de perspectiva: em vez de perguntar apenas como tornar os profissionais mais resistentes ao sofrimento, talvez seja necessário perguntar por que precisamos de tanta resiliência para trabalhar em determinados ambientes.

Cuidar da saúde mental continua sendo uma responsabilidade individual, mas não pode ser exclusivamente individual. Quem cuida também precisa ser cuidado — e essa responsabilidade também pertence às instituições.

O que levar desse episódio

Autocuidado é importante. Mas o autocuidado não pode virar uma forma de responsabilizar o indivíduo por um problema organizacional.

Por que precisamos de tanta resiliência para trabalhar aqui?

Não adianta dizer para alguém respirar fundo se o ambiente continua tirando o ar.

Referências do Episódio

  1. CARTA CAPITAL. 59% dos médicos jovens citam burnout como motivo para antecipar aposentadoria. CartaCapital – Do Micro ao Macro. https://www.cartacapital.com.br/do-micro-ao-macro/59-dos-medicos-jovens-citam-burnout-como-motivo-para-antecipar-aposentadoria/
  2. MEDSCAPE. Doctors are stressed worldwide: Why some more than others. Medscape, 2025. https://www.medscape.com/viewarticle/doctors-are-stressed-worldwide-why-some-more-than-others-2025a1000lvg
  3. MEDSCAPE PORTUGUÊS. Por que o estresse atinge alguns médicos mais do que outros ao redor do mundo? Medscape Português. https://portugues.medscape.com/verartigo/6513203
  4. MEDSCAPE PORTUGUÊS. Burnout médicos: resultado da falta de fé na profissão? Medscape Português, 2025. https://portugues.medscape.com/viewarticle/burnout-mdicos-resultado-falta-f-profisso-2025a1000o2f
  5. MEDSCAPE. Mental Health in Emergency Medicine. Medscape, 2025. https://www.medscape.com/slideshow/2025-mentalhealth-emergency-medicine-6018046
  6. EMERGENCY SERVICES PC. Emergency Medicine Burnout: Recognition, Prevention, and Sustainable Careers. Emergency Services PC. https://emergencyservicespc.com/emergency-medicine-burnout-recognition-prevention-and-sustainable-careers/

Episódios relacionados

Deixe seu comentário

Seu comentário poderá passar por moderação antes de aparecer.